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AVALIAÇÃO IN VITRO DA TEMPERATURA ALCANÇADA COM O USO DAS BROCAS GATES-GLIDDEN, LARGO E LARGO MODIFICADA DURANTE O PREPARO QUÍMICO-CIRÚRGICO DOS CANAIS RADICULARES |
Britto MLBRESUMO O objetivo deste estudo foi analisar a temperatura alcançada na parede dentinária durante o preparo com as brocas Gates-Glidden, Largo e Largo Modificada (# 1 e # 2) nos terços cervical e médio dos canais radiculares. Para tanto, 30 raízes mesiais de molares inferiores, apresentando uma curvatura de aproximadamente 30o, foram instrumentadas com substâncias químicas do tipo Endo-PTC neutralizado por hipoclorito de sódio e trocas constantes. Para efetuar a mensuração, termopares ligados a um termômetro digital foram utilizados. Os resultados demonstraram não haver diferença estatística significante entre as brocas (tipo e diâmetro) e os terços radiculares, em relação ao calor produzido. Ao analisar os terços radiculares, o terço cervical registrou temperaturas notadamente maiores, independentemente do tipo e do diâmetro da broca. Por meio de análise estatística, demonstrou-se que a broca Largo Modificada obteve a maior e mais significante temperatura, quando comparada com as outras brocas. Assim, o diferencial de temperatura máxima alcançado foi 1,27o C. De acordo com a literatura, este diferencial não é responsável por lesões no tecido periodontal e regiões adjacentes. INTRODUÇÃO O tratamento endodôntico tem por objetivo recuperar os dentes para suas funções de estética e mastigação, devendo sempre ser complementado pelas outras especialidades. Assim, é necessário ter bom senso clínico baseado em conhecimento biológico adequado, bem como o domínio das técnicas e biomateriais corretos para a execução da terapia proposta. Sabe-se que cada passo dos procedimentos cirúrgicos é importante. Contudo, os procedimentos que tangem o preparo das paredes do canal radicular e desgaste dentinário desempenham um papel decisivo no sucesso do tratamento, devido às demandas de tempo, instrumentos e substâncias químicas. Ao excisar a dentina radicular, deve-se dar especial atenção a: forma do canal principal e suas ramificações, espessura de dentina e cemento nos diversos segmentos radiculares, resistência da raiz para receber retentores, relação entre o endodonto e o periodonto adjacente e outros fatores. As manobras endodônticas cirúrgicas invasivas podem resultar em acidentes, fragilidade das paredes dentinárias, irritação dos tecidos e pseudo-eliminação dos processos infecciosos, caracterizando quase sempre erros profissionais. Na evolução da Endodontia, os instrumentos foram sendo modificados na tentativa de alcançar eficiência de corte, flexibilidade e desempenho, dentre outras propriedades. (Sydney et al.1, 1982; Leeb2, 1983; Walia et al.3, 1988; Wildey & Senia4, 1989; Luebke & Brantley5, 1991; Al-Omariet al.6,7, 1992 a e b; e, Brantley et al.8, 1994). Nas últimas duas décadas, a ênfase tem sido o preparo inicial do canal radicular. Os terços cervical e médio foram instrumentados com instrumentos rotatórios (Goerig et al.9, 1982; Holland et al.10, 1991; Machado11, 1993; e, Machado et al.12, 1998). Supõe-se que estes instrumentos gerem calor. O efeito do calor no periodonto nunca foi completamente esclarecido. A elevada temperatura na superfície externa da raiz causaria lesão imediata ou remota. Existem relatos mostrando que o aumento da temperatura pode resultar em lesão posterior, como reabsorções dentinárias e cementárias, inflamação crônica do tecido periodontal e lesão no tecido ósseo adjacente. (Bhaskar & Lily13, 1965; Eriksson et al.14, 1982; Eriksson & Sundstrom15, 1984; Saunders & Saunders16, 1989; e, Tjan & Abbate17, 1993). Embora a dentina apresente baixa condutividade térmica, é necessário considerar que o calor produzido pelas brocas nas paredes dentinárias durante o preparo do canal é transmitido para a superfície externa e para os tecidos de suporte dos dentes (Cohen et al.18, 1996; e, Machado et al.19, 1997). Torna-se imperativo conhecer as alterações térmicas que ocorrem no cemento adjacente dos preparos endodônticos, nos terços cervical e médio, quando do uso de diversos tipos de brocas sob as técnicas empregadas, além do conhecimento das substâncias químicas que auxiliam o processo de desinfecção. MATERIAL E MÉTODOS Foram selecionados 30 molares inferiores de modo aleatório, pertencentes ao estoque da Disciplina de Endodontia da FOUSP para uso neste estudo. Os dentes foram hidratados em soro fisiológico por um período mínimo de 72 horas. A curvatura era de aproximadamente 30o nas raízes mesiais (Schneider20, 1971). Foram executadas as cirurgias de acesso, de acordo com Paiva & Antoniazzi21 (1991). Os dentes foram colocados em cubetas de acrílico transparente (cuvet Fluometer PS 3 ml without stopper – Sygma – USA). Eles foram fixados através de resina de poliester (Resapol T – 208 e metil etil cetona – Outline Fiberglass – São Vicente – São Paulo). O tempo de presa foi de 36 horas.
Figura 1 – Inclusão do dente em resina na cubeta de acrílico e fixação dos termopares no conjunto cubeta/dente Os espécimes foram divididos em 3 grupos com 10 dentes em cada grupo para que se efetuasse a instrumentação do canal mésio-vestibular, do seguinte modo: G1 – instrumentação com Gates-Glidden # 1 e # 2 (Maillefer, Ballaigues, Swiss)( Figura 2); G2 – instrumentação com Largo # 1 e # 2 (Maillefer, Ballaigues, Swiss) (Figura 3); G3 – instrumentação com a broca Largo Modificada # 1 e # 2 – (Figura 4) - brocas Largo regulares # 1 e # 2 adelgaçadas na porção ativa com disco carborundum que resultaram numa broca Largo Modificada, com 5 mm de espiras cortantes (Figura 5).
Figura 5 – Adelgaçamento da broca Largo, transformando-a em – Largo Modificada Nos grupos experimentais, o preparo cérvico-apical foi feito de acordo com Machado11, sendo que as modificações combinavam com as características dos grupos experimentais. A broca # 1, acoplada no contra-ângulo é introduzida com baixa rotação no interior do canal e no nível cervical. Pressão apical leve é aplicada, bem como movimentos para frente e para trás, e pressão leve é dirigida para a parede externa na direção da curvatura ou área de resistência. Quando a broca está solta dentro do canal radicular, o mesmo procedimento é aplicado com a broca # 2. A broca # 1 é então usada novamente com leve pressão apical para penetrar facilmente no terço médio, parando no início da curvatura. Quando as brocas são usadas alternativamente, faz-se sempre necessário explorar com uma lima tipo K # 15, 4 mm aquém do comprimento do dente, de modo que as brocas # 1 e # 2 possam ter seu uso limitado às partes cervical e média, deixando assim o preparo apical para as limas K, terminando com o # 40. Todos estes procedimentos são feitos com substâncias químicas auxiliares. Endo-PTC e Líquido de Dakin são usados repetidamente, de acordo com a técnica de Paiva & Antoniazzi 21. No preparo químico-cirúrgico, os termopares são ligados ao Termômetro Digital MT 510 (Minipa Indústria Eletrônica Ltda. – São Paulo) nos conectores correspondentes e distintos, de modo a registrar o calor liberado em cada região cervical e média, marcando assim a temperatura máxima alcançada (Figura 6)
A seqüência de registros das temperaturas obtidas pelo termopar em cada terço foi a seguinte: a) temperatura antes do preparo; b) temperatura máxima obtida durante o preparo com a broca # 1 nos terços médio e cervical; c) temperatura máxima obtida durante o preparo com a broca # 2 nos terços cervical e médio. Após a leitura das temperaturas, as tabelas foram feitas mostrando a diferença de temperatura em todos os achados. Os dados foram analisados estatisticamente com GMC Basic Software – versão 7.0 (Programa de Estatística – Prof. Dr. Geraldo Maia Campos – Ribeirão Preto) com um nível de significância de a = 0,05 (5%). RESULTADOSAs temperaturas máximas na dentina foram registradas nos terços cervical e médio. Através da ação das brocas Gates-Glidden # 1 e # 2, Largo # 1 e # 2 e Largo Modificada (M-Largo) # 1 e # 2, foram estabelecidas as respectivas médias (Tabela 1). Tabela 1 – Medias das diferenças de temperatura nos terços instrumentados
tie = temperatura inicial do espécime; c = terço cervical; m = terço médio; B1 =broca # 1; B2 = broca # 2 A seguir, as diferenças em cada passo foram medidas. Na Tabela 2 encontram-se as respectivas médias e desvios padrões. Tabela 2 - Médias e desvios-padrão( ) das diferenças de temperaturas (0C) inicial e brocas #1 e #2 , segundo os terços e tipos de brocas.
Os valores desta tabela foram submetidos ao teste de normalidade, sendo a distribuição normal. Procedeu-se então a análise de variância. Com relação ao diâmetro das brocas, independentemente de seu tipo e o terço instrumentado, o teste estatístico de Tukey com a = 0,05 não mostrou diferença significante na temperatura produzida. Os resultados podem ser vistos na Tabela 3. Tabela 3 - Teste de Tukey para fator de variação de diâmetro das brocas
letras iguais não significante para a = 0,05 No que diz respeito ao tipo de broca usada, a Tabela 4 demonstra que a broca Largo Modificada apresentou um aumento estatisticamente significante de temperatura de 5%, em comparação com a Gates-Glidden e a Largo, através do teste de Tukey. Tabela 4 - Teste de Tukey para fator de variação - tipos de brocas
letras diferentes significante para a = 0,05 Analisando somente os terços instrumentados, a Tabela 5 mostra que no terço cervical, o calor gerado é maior do que no terço médio. Estes dados foram estatisticamente analisados através do teste de Tukey, com um valor crítico de 5%. Tabela 5- Teste de Tukey para fator de variação - terços
letras diferentes significante para a = 0,05 Na Tabela 6 encontram-se as médias correspondentes às interações entre terços e brocas, independentemente do diâmetro das mesmas. O valor crítico também pode ser visto, demonstrando haver diferença estatística significante quando a broca Largo Modificada é analisada nos dois terços, em relação aos outros terços. O valor individual maior e o diferencial de variação de temperatura mais elevado foram 31,4o C e 3,6o C com a broca M-Largo, respectivamente. Tabela 6 - Teste de Tukey para fator de interação - terços x brocas
letras diferentes significante para a = 0,05 DISCUSSÃOOs procedimentos clínicos que norteiam o binômio desinfecção-modelagem do canal radicular são imperativos durante o tratamento endodôntico. Para alcançar este objetivo, o profissional precisa ter grande habilidade específica, porque tais procedimentos são de difícil execução. Nesta fase do tratamento, é necessário alargar o canal, desgastar a parede dentinária para retificá-la e remover a dentina contaminada, para que se alcance a desinfecção e modelagem do endodonto. A anatomia do canal é alterada com o intuito de conseguir uma cavidade arredondada e cônica, permitindo assim a obturação adequada. Este desgaste é de difícil feitura nos canais com curvaturas radiculares. Estes merecem atenção especial na terapia endodôntica. Para se obter melhores resultados na terapia dos canais curvos, pesquisas têm sido feitas com relação aos instrumentos adequados, brocas especiais e novas técnicas de preparo, melhorando a qualidade das ligas metálicas e a cinemática (Sydney et al.1 , 1982; Walia et al.3 , 1988; Al-Omari et al.6,7, 1992 a e b ; Ingle22, 1961; Weine et al.23, 1975; Wildey et al.24., 1992; e, Tepel et al.25., 1995). Em 1993, Leeb26 demonstrou que as brocas Gates-Glidden facilitavam o preparo do canal radicular. Isto foi confirmado por Aragão & Garcia27 (1994) e Torabinejad28 (1994). Todavia, Brantley et al8. e Isom et al.29, (1995) chamam a atenção para o calibre e o sobre-uso destes instrumentos ao preparar o canal, uma vez que acidentes podem ocorrer, tais como fratura e perfuração. Ao mesmo tempo, novas técnicas foram propostas: Mullaney30, 1979; Fava31, 1983; Taylor32, 1984 e Melo & Sydney33, 1990. Entre os instrumentos rotatórios, as brocas Gates-Glidden e Largo despertaram grande interesse, devido ao uso fácil associado aos vários tipos de preparos escalonados ou outras técnicas (Goerig et al.34, 1982; Abou-Rass35 & Jastrab, 1982; Campos & Del Rio36, 1990; Holland et al.37, 1991; Machado11, 1993). A despeito das inúmeras vantagens, deve-se levar em conta o calor produzido pelo instrumento rotatório por causa do atrito nas paredes dentinárias. Contudo, para causar dano ao tecido periodontal, torna-se necessário ter um aumento de temperatura igual ou maior que 47o C14. A literatura não mostra claramente a alteração térmica resultante dos preparos quando do uso de brocas. Eriksson & Sundstrom15 usaram alargadores em contra-ângulos e afirmaram que o calor gerado foi significante. Todavia, Machado et al.19, encontraram pequena variação de temperatura. O presente estudo foi desenvolvido para mostrar a necessidade de preservação da integridade do periodonto lateral. Aplicando-se a técnica como um todo, isto é, a associação de brocas e substâncias químicas no preparo do canal nos terços cervical e médio, as temperaturas foram mensuradas e registradas na superfície dentinária, por meio de um termômetro ligado ao termopar. A broca Largo foi adelgaçada em 6 mm, transformando-se numa Largo Modificada, com o objetivo de gerar menos atrito e, consequentemente, menos calor, através da diminuição da superfície cortante. Poder-se-ia então comparar à broca Gates-Glidden. Diferenças de calor causadas por atrito das brocas na parede do canal radicular foram encontradas em alguns trabalhos15, 19 . As baixas temperaturas encontradas neste estudo são justificadas, provavelmente devido ao uso de substâncias químicas auxiliares junto com brocas de diâmetro pequeno, compatíveis com a anatomia do canal. Pode-se afirmar que este é um procedimento cirúrgico importante de execução segura (Tabela 2). O diâmetro da parte ativa da Gates-Glidden # 1 é igual a 0,50 mm, sendo 0,70 mm para a # 2, enquanto que a Largo # 1 é igual a 0,70 mm, sendo 0,90 mm para a # 2. A melhor comparação pode ser feita entre a Gates-Glidden # 2 e a Largo # 1. Os resultados demonstraram que o diferencial representado pelos diâmetros das brocas (# 1 versus # 2) não é estatisticamente significante, independentemente da procedência e o terço radicular medido (Tabela 3). A broca Largo Modificada apresentou um aumento significante de temperatura em comparação com as outras brocas. As brocas Largo Modificadas foram desenvolvidas para que se obtivesse menos geração de calor. Porém, o resultado foi oposto. Devido ao calibre e comprimento, o acesso foi melhor, bem como a ação profunda e eficiente nas paredes internas do canal, gerando assim mais calor (Tabela 4). O terço cervical apresenta maior quantidade de dentina e muitas irregularidades, exigindo maior tempo de preparo com conseqüente aumento de temperatura, quando comparado ao terço médio (Tabela 5). Quando os dados individuais da Tabela 6 são analisados, os aspectos já vistos nas tabelas anteriores ficam confirmados, onde as brocas Largo Modificadas revelaram os valores mais elevados de temperatura. Somente duas exceções foram significantes: quando a Largo # 1 no terço médio foi comparada ao cervical e com a Largo # 2 no terço médio. Este experimento também demonstrou os baixos valores obtidos com o aumento da temperatura nos diferentes terços, permitindo a utilização rotineira na prática clínica. Todavia, outros estudos são necessários para observar a forma e a qualidade destes preparos, na tentativa de alcançar a Endodontia baseada em qualidade e eficiência. CONCLUSÕESDiante dos resultados obtidos e de acordo com as condições do presente experimento, pode-se afirmar que: a) a média do aumento de temperatura atingida pela broca Gates-Glidden é o 0,15o C; 0,26o C pela broca Largo e 0,77o C pela broca M-Largo; b) o valor máximo do diferencial de temperatura foi 3,6o C, correspondente a temperatura final de 31,4o C, obtida pela broca M-Largo # 2 no terço médio; c) não houve diferença estatisticamente significante com relação ao calor gerado, em comparação com o diâmetro das brocas, independentemente de seu tipo e terço radicular; d) o terço cervical registrou um valor de temperatura significativamente mais elevado em relação ao terço médio, independentemente do tipo e diâmetro das brocas; e e) as brocas M-Largo # 1 e # 2 revelaram um aumento maior de temperatura em comparação com a Gates-Glidden e Largo em ambos os terços, sendo estatisticamente significante. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. SYDNEY, G.B. ; PESCE, H.F.; MELO, L.L. 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"IN VITRO" DA TEMPERATURA ALCANÇADA COM O USO DAS BROCAS
GATES-GLIDDEN, LARGO E LARGO MODIFICADA DURANTE O PREPARO
QUÍMICO-CIRÚRGICO DOS CANAIS RADICULARES"
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