Avaliação do pH do Iodofórmio diluído em solução aquosa


Pereira L

RESUMO

A intervenção endodôntica tem como um de seus objetivos a diminuição da contaminação, promovendo um desequilíbrio entre a agressão bacteriana e a resposta do organismo tornando possível a progressão para o reparo. O iodofórmio como medicamento intracanal indicado para o uso endodôntico a fim de promover a reparação tecidual. Esta pesquisa tem como objetivo avaliar o comportamento do pH do iodofórmio com e sem associação a um veículo gorduroso e assim verificar possíveis alterações proporcionadas. Para a realização deste trabalho foi utilizado iodofórmio com mensurações de pH em diferentes diluições, água destilada, álcool absoluto, e veículo gorduroso Carbowax®. Os dados obtidos foram tabulados e comparados e pode-se notar que nos grupos 1 e 2 o iodofórmio quando veiculado em água destilada apresentou neutralidade, na diluição em álcool pouca acidez a qual foi diminuindo a medida em que o iodofórmio foi aumentando, para ambos os veículos a associação ao carbowax® não ocorreu alteração significativa no comportamento do pH enquanto que na diluição do iodofórmio em álcool foram obtidos os menores valores de pH comparados com a diluição em água destilada.

Palavras chaves – iodofórmio; reparação tecidual; pH

 
ABSTRACT 

The intervention endodontic has as objective reduction the contamination, promoting disequilibrium between the bacterial aggression and the reply of the organism becoming possible the progression for the repair. The iodoform as intracanal medication indicated for endodontic treatment use in order to promote the repairing tecidual. This research has as objective to evaluate the behavior of pH of iodoform with and without association to a greasy vehicle and thus to verify possible proportionate alterations. For the accomplishment of this work iodoform with measure of pH in different dilutions was used, distilled water, absolute alcohol, and greasy vehicle Carbowax®. The data had been tabulated,  compared and can be noticed that in 2 groups 1 and iodoform when propagated in distilled water presented observed neutrality, in dilution in alcohol little acidity which was diminishing the measure where iodoform was increasing, for both the vehicles the association to carbowax® did not occur significant alteration in the behavior of pH whereas in the dilution of iodoform in alcohol had been gotten lesser values of pH compared with the dilution in distilled water.   

keywords - iodoform; repairing tecidual; pH

 

1.   Introdução

A intervenção endodôntica tem como um de seus objetivos a diminuição da contaminação, promovendo um desequilíbrio entre a agressão bacteriana e a resposta do organismo, favorecendo este último, tornando possível a progressão para o reparo.

A descontaminação é obtida na fase de preparo químico cirúrgico do canal radicular, em que a limpeza mecânica permite a profilaxia e modelagem do canal principal enquanto a limpeza química atinge áreas não afetadas pela instrumentação como as ramificações do canal principal e a região apical. Essa ação química é representada pela utilização de soluções irrigadoras e da medicação intracanal.

Falhas nos procedimentos endodônticos estão normalmente associadas a tratamentos de baixa qualidade, todavia, a persistência de microorganismos independe muitas vezes, do procedimento e a sua presença pode levar à formação tanto no interior dos canais como na porção apical de um biofilme, o qual pode determinar o insucesso da intervenção endodôntica.

Desta forma, os medicamentos indicados para uso endodôntico devem apresentar a capacidade de eliminar microorganismos patogênicos remanescentes ao preparo químico–cirúrgico, ou mesmo impedir a proliferação destes. Além disso, essas medicações devem ser capazes de modular a inflamação perirradicular  tornando-a clinicamente aceitável, além de estimular a reparação tecidual. O iodofórmio e o hidróxido de cálcio representam materiais de uso clínico que têm sido amplamente indicados para estas situações (Held,1964).

O iodofórmio é utilizado em Endodontia há muitos anos com um alto índice de sucesso. Seu mecanismo de ação está ligado à liberação de iodo, que é aumentada na presença de compostos orgânicos em desintegração, na ausência de oxigênio e luminosidade e em uma temperatura e pH ideais. A liberação do iodo propicia sua capacidade antibacteriana, sua capacidade detergente e é capaz de ativar a resposta imunológica estimulando a inflamação e conseqüentemente o reparo apical. Ele foi colocado em desuso devido a algumas desvantagens apresentadas como seu odor penetrante e desagradável, além da possibilidade de promover alteração cromática dos dentes e desenvolvimento de reações adversas em pacientes sensíveis ao iodo, condição que raras vezes pôde ser notada clinicamente.

Como o iodofórmio não é hidrossolúvel, mas sim lipossolúvel, para que se possa realizar sua inserção no canal radicular ele deve ser misturado a um veículo que deve ser gorduroso para que o mesmo possa escoar, sendo que este veículo deve preservar suas características e propriedades.
 

2 REVISÃO DA LITERATURA

O iodofórmio foi descoberto por Serullas em 1822 apud Pallotta (2001) e introduzido na terapêutica por Boucharadt em 1836 apude Pallotta (2001). Sendo muito utilizado para promover a granulação e diminuir a infecção em feridas abertas; pois resseca a ferida é considerado analgésico, levemente hemostático e antisséptico.

Walkhoff (1928) apud Pallotta (2001) introduziu o iodofórmio na prática endodôntica sob forma de pasta reabsorvível, sendo composta por iodofórmio, clorofenol canforado, mentol e timol, que era utilizada principalmente em canais de difícil acesso. Sua introdução no tratamento do complexo dentino – pulpar foi considerada inicialmente como irracional, tendo em vista que este material comporta – se como um corpo inerte em ausência de material orgânico favorecendo sua decomposição e a liberação de iodo nascente.

Segundo Pucci (1945) o iodofórmio é composto de um pó amarelo quimicamente é triiodometano (CHI3) ou triiodeto de formol, com alto teor de iodo (96%), sob forma de cristais hexagonais brilhantes, cor amarelo – limão de odor penetrante e persistente além de sabor desagradável. Tem pouca solubilidade em água, relativamente solúvel ao álcool, muito solúvel em óleo de oliva e éter. Estimulador de tecido de granulação por influência do iodo sobre o desenvolvimento celular, proporcionando uma ligeira anestesia.

Engel (1950) apud Maisto (1975) avaliou a pasta de Walkhoff onde de 18 casos tratados, 17 apresentaram sinais clínicos de melhora e 15 sinais histológicos com fechamento do forame apical.

Juge (1959) avaliou a utilização de pastas reabsorvíveis para a obturação de canais, afirmando que as mesmas não deveriam interferir no processo natural de cura. Sua indicação deveria estar restrita aos casos em que os condutos apresentavam-se infectados, com ou sem lesão periapaical, em que havia o risco de extravasamento de material obturador pelo periápice, nesse sentido, o autor concordou apenas com a indicação das pastas iodoformadas e de hidróxido de cálcio. Como propriedades do iodofórmio, o autor afirmou que, segundo Walkhoff, ele não é irritante, é reabsorvível, paralisa secreções, tem ação anti-séptica de longa duração até ser reabsorvido e é bem tolerado pelos tecidos periapicais, produzindo fechamento fisiológico do ápice. O hidróxido de cálcio, por sua vez, seria mais útil para obturação após pulpectomia ou pulpotomia.

Held & Engelbrecht (1964) relataram que as pastas iodoformadas tem ação local sobre os tecidos, diminuindo a exsudação e estimulando o reparo. Estas pastas são de reabsorção rápida, decompõem lentamente em temperatura corporal, ativam a fagocitose de resíduos irritantes aos tecidos e são facilmente removidas pela irrigação do canal radicular.

Maisto & Eurasquin (1965) analisaram o comportamento dos tecidos periapicais frente a algumas pastas reabsorvíveis à base de iodofórmio. Avaliaram, para isso, o tratamento endodôntico de 60 ratos que foram divididos em grupos obturados com três pastas reabsorvíveis: a) pasta lentamente reabsorvível de Maisto – 14g de óxido de zinco, 42g de iodofórmio, 2g de timol, 3cc de clorofenol canforado, 0,50 de lanolina – b) pasta rapidamente reabsorvível de Maisto – clorofenol canforado e glicerina em partes iguais – c) pasta rapidamente reabsorvível de iodofórmio e hidróxido de cálcio – em proporções iguais em uma solução aquosa. Os autores observaram que as pastas utilizadas ativam a resposta inflamatória, e que, quando da ocorrência de extravasamento, o material é facilmente reabsorvido. Em dentes jovens foi obtido um selamento completo do conduto; já em dentes de ratos mais velhos houve simplesmente uma diminuição de sua luz. A reação às pastas não apresentou diferenças significativas; a reabsorção do cemento apical não parece ter relação direta com sua utilização.

Maisto (1975) relatou que as pastas antissépticas à base de iodofórmio e clorofenol canforado-mentol ou glicerina são rapidamente reabsorvíveis na zona periapical. O iodofórmio é radiopaco, volatiza-se lentamente em contato com o ar e à temperatura ambiente, porém de forma mais rápida quando a 370C por sua vez, a pasta antisséptica à base de iodofórmio, com uma parte de óxido de zinco e eugenol para cada três partes de iodofórmio, é lentamente reabsorvível na zona periapical e praticamente não se reabsorve dentro do conduto. Além disso, agregado a outros antissépticos é perfeitamente tolerado no periápice, ainda que em grandes sobreobturações. Seu valor como antisséptico é muito relativo, mas são bem conhecidas as reparações de extensas lesões periapicais posteriormente à sua aplicação. O iodofórmio libera iodo em estado nascente ao entrar em contato com o tecido periapical, estimula a formação de novo tecido de granulação, o que contribui para a posterior reparação óssea. Ele atua em melhores condições privado de oxigênio, em meio alcalino. A sua ação depende da quantidade e concentração das drogas assim como da sua velocidade de reabsorção.

Castagnola (1976) avaliou a atividade antisséptica de várias pastas medicamentosas através da difusão em Agar. Utilizou culturas puras de StapHylococcus aureus, StapHylococcus hemolíticos e StapHylococcus não-hemolíticos, Enterococcus e culturas mistas de anaeróbios e aeróbios. Os melhores resultados foram obtidos pelas pastas iodoformadas Kri 1 e Walkhoff. Os autores também relatam o tratamento de 1000 casos pelo método de Walkhoff – que consistia da administração de medicações à base de clorofenol e posterior obturação posteriormente com uma pasta de paraclorofenol–mentol-cânfora-iodofórmio. Nessa amostragem, 68% dos casos apresentaram resultados perfeitos e dos demais, 78% manifestaram melhoras consideráveis. Um outro fato a ser considerado é a fácil reabsorção do iodofórmio, cuja remoção ocorre somente pela ação de células teciduais.

Castagnola (1976) verificou o papel da pasta iodoformada de Walkhoff na terapia endodôntica moderna. Duas das preparações originais de Walkhoff mereceram destaque: a) a solução de clorofenol-cânfora-mentol e b) pasta de iodofórmio, as quais são moderadamente conhecidas como a pasta de Kri. Como vantagens destas manipulações o autor coloca a estimulação da formação de tecido de granulação, a diminuição da secreção, a radiopacidade, a facilidade de manipulação, podendo controlar sua consistência, além do fato de ser facilmente removível e reabsorvível. As contra-indicações citadas pelo autor referem-se ao fato das mesmas serem reabsorvidas do interior do canal, bem como o seu não endurecimento, o que não permite um selamento adequado, o gosto desagradável e o fato de poder desenvolver alergias. Sua indicação corresponde aos casos de extirpação da polpa, tratamento de abscessos, podendo ser utilizado ou como medicação entre as sessões ou utilizando junto com a obturação, onde ao cimento é acrescida uma pequena quantidade de iodofórmio e através do método de Maisto lentamente reabsorvível. Ainda estão indicadas estas pastas, como preenchimento da fístula artificial em pacientes jovens com o ápice aberto e necrose, como tratamento preparatório para apicectomia e tratamento preparatório para implante endodôntico.

  Semeraro & Magalhães (1978), as vantagens de se utilizar o iodofórmio em Endodontia, é por este apresentar condições propícias a liberação de iodo , que penetrará nos túbulos dentinários quando usado com um veículo de baixa tensão promoverá ação antisséptica e pode ser utilizado em polpas vivas ou necrosadas, sendo indicado para casos lesões mais severas.

Guedes-Pinto et al. (1981) mostraram que o iodofórmio é bastante difundido na Odontopediatria. Estes autores propõem uma alteração na técnica terapêutica de dentes decíduos com polpa mortificada onde, após o preparo do canal, utilizando-se como substâncias químicas auxiliares o líquido de Dakin e o Endo-PTC, os canais eram obturados com a pasta Guedes, que é constituída de partes iguais de iodofórmio, Rifocort® e Paramonoclorofenol Canforado. O tratamento foi bem sucedido em 45 dos 46 casos, com regressão das fístulas que possivelmente estavam presentes, sendo que nenhum dos casos apresentou dor pós-operatória. Radiograficamente pode ser observado, nos casos de extravasamento da pasta, a reabsorção da mesma num período de 30 dias seguida de neoformação óssea.

Rifkin (1982) descreveu casos de tratamentos de dentes decíduos abscedados com uma pasta a base de iodofórmio (Kri), os quais foram acompanhados por 3 a 4 anos. Dos trinta e oito pacientes que foram acompanhados durante este período para controle, 30 dentes permanentes erupcionaram sem qualquer problema, e os demais decíduos permaneciam na boca sendo acompanhados com sucesso aparente.

Aydos & Milano (1984) realizaram uma revisão da literatura sobre a utilização do iodofórmio na Endodontia. Os autores investigaram sua radiopacidade, capacidade antisséptica e a possibilidade de estimulação biológica, levando ao reparo do tecido periapical. Concluíram que o iodofórmio confere radiopacidade, a pastas à base de hidróxido de cálcio, que os mesmos não possuem ação antibacteriana “in vitro”, apresentando grande divergência no que se refere à sua ação “in vivo”. A capacidade de estimulação biológica do iodofórmio, pela falta de investigações, só pode ser considerada como hipótese.

Rocca et al (1985),  para analisar clinicamente uma alteração da pasta de Walkhoff em tratamento da necrose pulpar, analisaram 59 pacientes com diferentes patologias (granulomas, abscessos crônicos e agudos e cistos). Os dentes foram instrumentados e obturados com uma pasta modificada pelo acréscimo de 1,00g de prata na composição. Para a avaliação do sucesso, foram observadas a mobilidade dental – que diminuiu significativamente – e a dor pós operatória – que apresentou 10% de ocorrências. Radiograficamente, todos os casos mostraram reparação após 6 meses de observação, à exceção dos cistos.

Manisali et al. (1989) descrevem um caso onde houve o extravasamento da obturação com uma pasta iodoformada do canal de um segundo pré-molar inferior esquerdo. O extravasamento não se limitou à região periapical, mas foi até a região do segundo molar. Pode ser verificado que não houve alteração alguma na região nem sintomatologia dolorosa por parte do paciente, sendo a pasta rapidamente reabsorvida.

Siqueira et al (1997) avaliaram a possível influência da adição de iodofórmio sobre as propriedades antibacterianas de uma associação de hidróxido de cálcio e paramonoclorofenol canforado (PMCC) em glicerina. Para tanto, utilizaram as seguintes bactérias anaeróbias restritas: Porpyromonas endodontalis, PorpHyromonas gingivalis, Prevotela intermédia; e os microorganismos facultativos Enterococcus fecalis, Strptococcus sanguis e StapHylococcus aureus. As pastas utilizadas foram: a) associação de hidróxido de cálcio com PMCC em glicerina; b) hidróxido de cálcio e iodofórmio (3:1) com PMCC em glicerina; c) hidróxido de cálcio e iodofórmio (6:1) com PMCC em glicerina; d) hidróxido de cálcio em glicerina. A atividade antibacteriana foi avaliada pela medida de halos de inibição com o método de difusão em agar. Os autores observaram que a adição de iodofórmio à pasta não interfere nas propriedades antibacterianas. A pasta de iodofórmio e glicerina apresentou discreta atividade antibacteriana, e a pasta de hidróxido de cálcio e glicerina não apresentou qualquer efeito inibitório sobre as espécies testadas.

.Daniel et al. (1999), com a revisão da literatura sobre as propriedades e contradições à respeito da utilização do iodofórmio como medicação intracanal, dentre os fatores que fizeram com que a endodontia não mais utilizasse os autores citam seu odor penetrante e desagradável, seu poder de interferir na cromática dos dentes e algumas reações adversas em pacientes sensíveis ao iodo devido a alta liberação de iodo portanto ainda não foi relatado na literatura nenhum caso dessa natureza. Quanto à sua capacidade antisséptica, está relacionada com o seu efeito quando em contato com secreções ou áreas infectadas, liberando iodo nascente. Como características favoráveis foram citadas o seu poder de radiopacidade, sua penetração nos tecidos periapicais, a analgesia, secreção de feridas diminuídas, reabsorção e estimulação biológica na reparação dos tecidos.

Pallotta, em 2001, avaliou a ação antibacteriana de quatro medicações de uso endodôntico pelo método da diluição em caldo. As medicações avaliadas foram o Iodofórmio, o Hidróxido de Cálcio e duas associações, o CFC - 25% de Ciprofloxacin, 25% Metronidazol e 50% Hidróxido de cálcio – e o IKI – 2% Iodo, 4% Iodeto de potássio - sobre o Enterococcus faecalis, StapHylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa e Bacteroides fragilis. O experimento consistia na incubação em tubos de ensaio de uma associação entre bactérias e meio de cultura na qual deveria ser acrescentada a medicação em dez diferentes concentrações. Após o período de incubação, o crescimento deveria ser avaliado pela turbidez do tubo, comparando com a escala de MacFarland. Com exceção do IKI sobre o Pseudomonas aeruginosa, todos os medicamentos apresentaram ação sobre as bactérias estudadas. Outra observação diz respeito ao aumento da ação de todas as drogas a medida que as mesmas possuíam suas concentrações aumentadas.

Daniel (2001), pelo processo de reparo de lesões periapicais foi avaliado por, através de análises radiográficas e microscópicas após o emprego de medicação intracanal em molares de ratos nos quais foi induzida lesão periapical. Depois de abertos e instrumentados, os canais foram medicados com iodofórmio (com Carbowax®), hidróxido de cálcio (com polietilenoglicol 400) e CFC (com PRP). Os animais foram sacrificados após 7, 15 e 30 dias e as peças analisadas radiográfica e  microscopicamente. Os resultados mostram a formação de lesões periapicais após os períodos experimentais e que todas as substâncias utilizadas neste estudo contribuíram para a diminuição da lesão periapical. No final de 30 dias, não houve diferença estatisticamente significante entre as medicações testadas, no tocante a freqüência de lesão periapical, intensidade do infiltrado inflamatório e processo de reparo.

Pallotta (2002), por meio de procedimentos para o tratamento de dentes portadores de lesão endodôntica a base de iodofórmio são descritos por. O autor descreveu o modus faciendi da medicação por meio de sua inserção e pela realização de trocas constantes ate que se tenham sinais clínicos de que a lesão esteja diminuindo radiograficamente e os sinais e sintomas tenham desaparecido.

Breder (2003) compararam a atividade antibacteriana do Iodofórmio e do Hidróxido de Cálcio associados à dentina por raízes extraídas de molares superiores necrosados e com lesão periapical eram trituradas e misturadas às medicações testadas. Também foram obtidas bactérias de biofilmes dentais. Pelo método da difusão em ágar, foi observado que ambas as drogas possuíam atividade antibacteriana semelhante e que esta propriedade não sofreu ação inibitória da dentina.

Gomes (2003), valendo-se de dentes de cães, avaliaram a resposta tecidual após tratamento endodôntico em dentes portadores de lesões induzidas, realizados em sessão única ou com curativos de demora a base de iodofórmio e hidróxido de cálcio, estes que permaneciam por 15 dias. Os tratamentos eram analisados histologicamente após 30 e 90 dias. Pode ser observado comportamento semelhante nos grupos tratados com curativo de demora com inflamação branda e freqüente visualização de neoformação óssea e cementária, ao passo que no grupo dos dentes tratados em sessão única, foi encontrado infiltrado inflamatório severo, sem indícios de processo de reparação.

Pallotta (2003) avaliou quantitativa e qualitativamente as reações que o organismo desenvolve em relação a duas drogas utilizadas como medicação intracanal – iodofórmio e hidróxido de cálcio -, quando as mesmas são implantadas em dorso de ratos. Para tanto foram utilizados vinte ratos albinos (Rattus norvegicus, var albino, linhagem Wistar), nos quais foram inseridas as medicações a serem testadas em seu veículo e consistência de uso clínico. Os grupos experimentais eram (GCI), representados pelo grupo do tecido normal, íntegro (GCI), a ferida controle (GCII) onde nenhuma medicação foi colocada e os grupos tratados com grupo do tecido normal, íntegro (GCI), iodofórmio (FOD) e hidróxido de cálcio (FOE). Passados períodos de três, cinco e onze dias, a região onde foi implantada a medicação era removida em bloco com o tecido adjacente. Neste momento a condição macroscópica era observada. A análise qualitativa era a simples observação microscópica e avaliação. No caso da quantitativa a avaliação deveria ser realizada por meio de fotomicrografias com 550X de aumento de campos representativos do subcutâneo que deveriam ser divididas em 100 pontos com uma grade onde as estruturas mais representativas deveriam ser contadas seguindo a seguinte denominação: células epiteliais, fibras colágenas, fibroblastos, macrófagos, linfócitos, neutrófilos, vasos e outras estruturas (áreas de necrose, fibrócitos, folículos pilosos, espaços). A análise qualitativa mostrou que o grupo FOD interferiu menos no processo de reparo enquanto o FOE mostrou grande área de necrose que demorou todo o período experimental para ser parcialmente recomposta. Já a análise quantitativa mostra para o FOD uma demora na inicialização da resposta, com um pico da reação inflamatória aos 5 dias; enquanto para o FOE uma grande área de necrose foi observada, demonstrando uma condição mais favorável após onze dias de estudo

 

3. PROPOSIÇÃO 

Esta pesquisa teve como objetivo avaliar o comportamento do pH do iodofórmio associado a diferentes veículos, principalmente o  gorduroso para verificar possíveis alterações proporcionadas.

 

4. Material e MétodoS 

4.1. Material

·   Água destilada

·   Álcool absoluto

·   Baqueta de vidro (Vidrolabor)

·   Béquer de vidro (Pyrex® (USA)

·   Carbowax (Fórmula & Ação Farmácia Magistral Ltda São Paulo – SP )

·   Espátula n0 24 (SS White Duflex)

·   Iodofórmio 40 cápsulas de 1 grama - (Fórmula & Ação Farmácia Magistral Ltda – São Paulo  - SP)

·   pHmetro (PHTEK)       

·   Placa de vidro

·   Proveta de vidro (Vidrolabor)

 

4.2. Métodos

Para a realização deste trabalho foi utilizado o medicamento iodofórmio que teve seu pH mensurado em diferentes diluições. Para efeito de comparação também foi obtido os valores de pH da água destilada, álcool e o mesmo incorporado a droga a ser testada.

Sendo assim, foram obtidos quatro grupos:

G1 – diluição do iodofórmio em água

G2 – associação do iodofórmio ao carbowax e diluição em água

G3 – diluição do iodofórmio em álcool

G4 – associação do iodofórmio ao carbowax e diluição em álcool

 

O procedimento propriamente dito consistiu na inserção de 50ml de água destilada em um béquer e a inserção do féretro que verificou o valor do pH (pH0, ou pH inicial) (figura 1).

                Figura 1: pHmetro – verficação do pH

A esta solução foi adicionado o medicamento a ser testado. O iodofórmio 1g foi adicionado a um veículo gorduroso, o Carbowax progressivamente 1g por vez até atingir o valor de 10g. A cada intervalo foi anotado o valor de pH obtido. Serão obtidos assim, valores para as diferentes  diluições.

 Foi manipulada imediatamente antes do uso, uma pasta do fármaco com este agente nas proporções clinicamente utilizadas. Estas associações foram também introduzidas em outras soluções de água destilada para verificar o valor de pH obtido.(figura 2)

            Figura 2 - Iodofórmio/água destilada

 

Uma vez que o álcool é um dos diluentes do iodofórmio, foi também testada a droga em soluções alcoólicas onde se verificou  alterações de pH e assim  um comportamento mais preciso, do iodofórmio pode ser avaliado.Os dados obtidos foram tabulados e comparados.(figura 3)

            Figura 3 - Iodofórmio/álcool

 

5. RESULTADOS

Os resultados obtidos do pH foram tabulados (tabela 1)

Tabela1 -  Valores obtidos de pH para o iodofórmio associado ou não ao Carbowax®

 

G1

G2

G3

G4

0g

7,7

7,4

6,3

7,03

1g

7,3

6,3

6,7

6,3

2g

7,1

6,2

5,5

4,9

3g

8,4

6,3

5,3

4,9

4g

8,0

7,1

5,2

5,0

5g

7,6

7,6

5,2

5,1

6g

8,0

7,8

5,0

5,4

7g

7,2

7,9

5,8

5,6

8g

8,0

8,2

5,5

5,6

9g

7,5

8,1

5,7

6,1

10g

7,9

8,2

5,9

5,9

Media

7,700

7,630

5,500

5,560

SD

0,402

0,827

0,511

0,667

 

E para uma melhor visualização dos resultados ele foi convertido em gráfico (gráfico 1).

Gráfico 1 -  Valores obtidos de pH para o iodofórmio associado ou não ao Carbowax®

Pode ser observada uma tendência de neutralidade quando o iodofórmio foi veiculado em água destilada (G1 e G2), enquanto houve uma pequena acidez na diluição em álcool, a qual foi diminuindo a medida que a  quantidade de iodofórmio foi aumentando. Para ambos os veículos, a associação ao Carbowax não levou a alteração significativa do comportamento do pH. A sua vez, a diluição do iodofórmio em álcool demonstrou valores significativamente menores de pH que a diluição em água destilada.

 

6. DISCUSSÃO    

     A Endodontia encontra-se freqüentemente a dois aspectos fundamentais: de um lado a anatomia de canais radiculares, com ramificações laterais e apicais diversas do canal principal e do outro os microorganismos e suas toxinas, os quais representam fatores etiológicos dos processos patológicos.

A descontaminação dos canais radiculares é obtida através da remoção mecânica com o uso de limas, brocas e instrumentos rotatórios e da remoção química valendo-se de substâncias com ação antibacteriana. Contudo, devido à grande quantidade de microorganismos e à imensa variedade dos mesmos e sua capacidade de adaptação, sua eliminação torna-se complexa e de difícil execução. Desta forma, a utilização de fármacos que complementem a ação do preparo torna-se fundamental para a resolução de casos de infecções persistentes. Nestas situações, a escolha recai sobre medicamentos que ajam diretamente sobre a contaminação bacteriana dificultando seu crescimento e proliferação, ou de forma indireta estimulando o reparo.

Entretanto, na avaliação da ação deste tipo de droga, pode-se observar a necessidade de contato com a contaminação sendo possível estabelecer uma relação direta entre a concentração de medicação e sua eficácia (Pallotta, 2001), tornando-se necessário conhecer suas propriedades físico-químicas na busca por esclarecer as situações e possíveis contradições existentes com relação à realidade clínica.

O objetivo deste estudo foi avaliar in vitro, o comportamento do pH do iodofórmio associado a diferentes veículos.

Na Endodontia o iodofórmio é utilizado há anos com um alto índice de sucesso (Walkhoff 1928). Ele foi colocado em desuso devido a algumas desvantagens como seu odor penetrante e desagradável, cromaticidade do elemento dentário e reações adversas em pacientes sensíveis ao iodo, condição esta que afeta apenas uma pequena porcentagem da população (Daniel, 1998; Daniel et al. 1999). Como propriedade clínica, o iodofórmio apresenta atividade antibacteriana, em especial em anaerobiose. Sabe-se ainda que ele potencialize a atividade do hidróxido de cálcio. (Pallotta, 2001, 2003)

Ao avaliar a resposta tecidual depois de realizado tratamento endodôntico em dentes portadores de lesões induzidas, realizados em sessão única ou com curativos de demora a base de iodofórmio pode-se observar o comportamento  da droga com visualização de neoformação óssea e cementária.(Gomes 2003).

No que se refere ao pH, o tecido inflamado tem um pH reconhecidamente ácido, no qual grande parte das bactérias encontradas no sistema de canais radiculares se desenvolve, assim como enzimas que promovem a lise óssea são mais eficientes nestas condições.

Neste estudo, os valores de pH encontrados para o iodofórmio tendem à neutralidade quando ele é diluído em água destilada. Como o iodofórmio é solúvel em meios gordurosos, pode ser observada uma diminuição de pH quando ele é associado ao Carbowax porém sem diferença estatisticamente significativa; da mesma forma, este fármaco é solúvel em álcool e os valores encontrados para este meio são mais ácidos. Analisando estes dados, pode-se supor que a liberação do iodo torna o meio ácido.

Sabe-se que a dissolução do iodofórmio e a conseqüente liberação de iodo ocorre de maneira lenta e constante, sendo assim, pode-se supor que a promoção de um pH mais neutro pode justificar a menor incidência de dor pós-operatória, além da melhor tolerância tecidual e menor interferência no processo de cura quando da utilização do iodofórmio como medicação intracanal. Igualmente, pode-se afirmar que o mecanismo de ação do iodofórmio não está diretamente ligado à alteração do pH do meio.

Sendo assim, a interação entre os valores do pH do meio e da medicação a ser inserida deve ser considerada na escolha do fármaco, uma vez que poucas bactérias conseguem sobreviver em valores extremos de pH (muito ácidos ou muito básicos) mas também poucas células o fazem. Neste sentido, a aplicabilidade clínica deste fato deve ser levada a luz de outros estudos que possam contribuir para a observação clínica e prática da utilização destes fármacos.

 

7. CONCLUSÕES

·      Nos grupos 1 e 2 o iodofórmio quando veiculado em água destilada apresentou neutralidade;

·      O iodofórmio diluído em álcool apresentou pouca acidez ao qual foi diminuindo a medida em que o iodofórmio foi aumentando;

·      Ambos os veículos não sofreram alteração significativa de pH quando associados ao carbowax®;

·      Na diluição do iodofórmio em álcool foram obtidos os menores valores de pH comparados com a diluição em água destilada.

 

Referências

1.           Aydos JH, Milano NF. Revisão bibliográfica sobre o uso do iodofórmio em endodontia. Rev Fac Odontol de Porto Alegre 1984; 26: 43-51.

2.           Breder CMB. Atividade Antibacteriana do Iodofórmio e do Hidróxido de Cálcio, Associados à dentina: Estudo in vitro. [Dissertação]. Campinas: Centro de Estudo e Pesquisa São Leopoldo Mandic. 2003.

3.           Castagnola L. The use of iodoform paste (Walkhoff method) in modern endodontic therapy. Quintessence Int 1976,7(4):19-23.

4.           Daniel RLDP, Jaeger MMM, Machado MEL.  Emprego do iodofórmio em Endodontia – revisão da literatura. RPG 1999; 6 (2): 175 – 9.

5.           Daniel RLDP, Jaeger MMM, Machado MEL. Análise comparativa da citotoxidade in vitro do iodofórmio e do hidróxido de cálcio. RPG 1998; 5(4): 273.

6.           Daniel RLDP. Análises radiográficas e microscópicas do processo de reparo de lesões periapicais após o emprego de medicação intracanal em dentes de rato. [Tese]. São Paulo: Faculdade de Odontologia da USP; 2001.

7.           Gomes CC. Avaliação Histológica do Reparo Tecidual em Dentes de Cães Submetidos a Tratamento Endodôntico em Sessão Única ou Empregando dois Diferentes Curativos de Demora.(Dissertação de Mestrado). Campinas: Centro de Estudo e Pesquisa São Leopoldo Mandic. 2003.

8.           Guedes-Pinto A,Paiva JG,Bozzola JR. Tratamento endodôntico de dentes decíduos com polpa mortificada. Ver Assoc Paul Ar Dent.1981,35(3):240-245.

9.           Held AJ, Engelbrecht E. L`iodoforme doitìl être abandonné?Rev. odonto. Stomat 1964; 74 (8):715 – 735.

10.      Juge H Resorbable pastes for root canal fillings. Int Dent J 1959;9(4):461-476.

11.      Maisto OA, Capurro MA. Obturación de conductos radiculares con hidróxido de cálcio-iodofórmio. RAS 1964; 52(5): 167-173.

12.      Maisto AO, Eurasquin J. Reacción de los tejidos periapicales Del molar de la rata a lãs pastas de obturación reabsorbiles. Rev Assoc Odontol Argent 1965,53 (1):12-20.

13.      Maisto AO. Endodoncia Buenos Aires Mundi 1975,3(1):217-289.

14.      Manisali Y,Yucel T,Erisen R. Overfiling of the root-a case repot. Oral Surg Oral Med Oral Pahol 1989, 68(6):773-775.

15.      Pallotta RC. A utilização do iodofórmio como medicação intracanal. Jornal APCD regional de Osasco; Osasco 2002 agosto; 39:8-9.

16.      Pallotta RC. Avaliação In Vitro da Atividade Antibacteriana de Quatro Medicações de Uso Endodôntico, pelo Método da Diluição em Caldo. [Dissertação]. São Paulo: Faculdade de Odontologia da UCCB; 2001.

17.      Pallotta RC. Análise Qualitativa E Quantitativa da Resposta Inflamatória Frente a Diferentes Medicações de Uso Endodôntico – Iodofórmio E Hidróxido de Cálcio - Quando Aplicadas em Tecido Subcutâneo do Dorso de Rato. [Tese]. São Paulo: Faculdade de Odontologia da USP. 2003.

18.      Pallotta, RC; Ribeiro, MS; Machado, MEL. Determination of the minimum inhibitory concentration of four medicaments used as intracanal medication. Aust Endod J. 2007.Dec; 33(3):107-11.

19.      Pucci FM. Conductos radiculares: anatomia, patologia Y terapia. Medico Quirurgica 1945; 2: 344 – 75.

20.       Rifkin,A The root canal treatment of abscessed primary teeth – a three to four year follow – up. ASDC J. Dent Ch,1982;49(6):428-431.

21.      Rocca JP, Dupres JP, Deluzain G et al. Therapeutique des complications de la gangrene pulpaire: évaluation clinique d’une patê de walkhoff modifiée utilisée in tecchnique monocône. Chir Dent Fr. 1985, 306(55):97-9.

22.      Semeraro D, Magalhães TR. Iodofórmio um medicamento poderoso. Rev Farm Odont. 1978; 44: 445 – 7.

23.      Siqueira JR, Lopes HP. Mechanisms of antimicrobial activity of calcium hydroxide: a critical review. Int Endod J. 1999; 32(5):361- 9.

24.      Siqueira JR JF,Uzeda M. Intracanal medicaments:Evoluation of the antibacterial effects of chlorexidine,metronidazole,and calcium hydroxide associated with three vehicles. J Endod. 1997; 23(3):167- 9.

 


* INFORMAÇÕES:

Título: “Avaliação do pH do Iodofórmio diluído em solução aquosa"
Natureza:
Monografia de Especialização em Endodontia
Autor
: Lucineide Pereira
Orientador
: Prof. Dr. Raul Capp Pallotta
Co-Orientadora: Maria Leticia Borges Britto

Instituição : Universidade Cruzeiro do Sul

Ano: 2008

  • Caso necessite utilizar citar fonte e autor!

DOWNLOAD EM PDF

 


<<voltar