Análise da real concentração de cloro ativo em soluções de hipoclorito de sódio


Gomes MCP

Resumo

      O objetivo deste estudo foi analisar a real concentração do hipoclorito de sódio utilizado em procedimentos endodônticos nos consultórios da grande São Paulo, verificando as condições de armazenagem e embalagem da solução. Foram recolhidas 50 amostras aleatoriamente em diversas regiões, as quais apresentavam concentrações distintas, sendo sempre observadas as condições de armazenagem e embalagem das soluções cedidas pelos profissionais. As amostras foram armazenadas em vidros âmbar e mantidas em caixas de isopor para que fosse realizada a titulometria. Os resultados mostraram, que o nível de concentração do hipoclorito de sódio relatado pelos Cirurgiões Dentistas eram em sua maioria menores do que os profissionais acreditavam ser, principalmente quando se tratava do hipoclorito de sódio a 0,5%, no qual pode-se observar que houve diferença estatisticamente significante comparando-se as soluções de hipoclorito de sódio a 0,5% com as soluções a 1% e de 2% a 2,5%. No entanto, entre as soluções a 1% e de 2% a 2,5%, não houve diferença estatisticamente significante. A grande maioria das amostras era encontrada em frasco de plástico opaco armazenado em armário. 

Descritores: Hipoclorito de sódio, Compostos Químicos, Titulometria, Endodontia

 

Abstract

Analysis on the real concentration of active chlorine in sodium hypochlorite solutions

      This study aimed to analyse the real concentration of sodium hypochlorite solution used on endodontic procedures in dental clinics from all over the city of São Paulo, checking the conditions in which the solution was stored and kept. Fifty samples were randomly taken from different areas of the city. These samples presented different concentrations, which vary according to the condition in which the provided samples were stored and kept by the professionals. The samples were stored in amber glasses, and kept in isopor boxes so that the titrimetry could be performed. The results shown that the level of sodium hypochlorite concentration mentioned by most of the Surgeon Dentists were lower than they thought, mainly the solution of 0,5% sodium hypochlorite, in which it was possible to observe a difference statistically significant by comparing the solutions of 0,5% sodium hypochlorite with the solutions of 1% and from 2% to 2,5%. However, between the solutions of 1% with the solutions from 2% to 2,5%, there was no difference statistically significant. Most of the samples were stored in opaque plastic in a counter. 

Descriptors: Sodium Hypochlorite, Chemical Compounds, Titrimetry, Endodontics

 

Introdução e Revisão da Literatura

     Um dos principais objetivos da terapia endodôntica, que procura ser obtida durante a fase do preparo químico-cirúrgico, é a tríade: modelagem, desinfecção e limpeza do sistema de canais radiculares. Esta condição é obtida por instrumentos endodônticos em associação a substâncias químicas4,9, nos quais são mais do que meras coadjuvantes; são essenciais14.

     Uma das substâncias químicas mais utilizadas mundialmente é o hipoclorito de sódio, que podem ser encontradas com diferentes concentrações como o de 0,5%, 1% e de 2% a 2,5%, conhecidos respectivamente de Líquido de Dakin, Solução de Milton e Soda Clorada.

     Tem sido notada também a presença do hipoclorito de sódio 5,25%, comumente chamada de Soda Clorada duplamente concentrada.

      O hipoclorito de sódio em suas diferentes concentrações apresenta uma atividade antimicrobiana intensa e diversas propriedades físico-químicas, que vão desde a desodorização até a dissolução pulpar, que lhe conferem um caráter de excelente coadjuvante à instrumentação de canais radiculares2,6.

     De forma geral, o uso de água sanitária no tratamento endodônitco vem sendo considerado como opção ao uso de hipoclorito de sódio em concentrações mais baixas1,5,15, devido sua alta irritabilidade conferidas às suas propriedades de dissolução tecidual.

     Para tanto, é necessária que propriedades como pH, condutividade e concentração de cloro ativo sejam levadas em consideração5, mesmo porque sua instabilidade e seu poder antibacteriano e irritativo está intimamente interligado a um destes fatores.

     Dada a importância do uso do hipoclorito de sódio como solução irrigadora no tratamento de canais radiculares, amostras do mesmo em suas diferentes concentrações vêm sendo utilizadas em estudos com finalidade de avaliar sua eficácia e instabilidade 3, 5,12,13,17,18, sendo que a concentração inicial de cloro pode ser alterada por diversos fatores dentre eles: a temperatura, as características de armazenamento, embalagem e distribuição da solução7,8,9,14.

 

Proposição

     Levando-se em consideração a importância do teor de cloro nas soluções de hipoclorito de sódio utilizadas na irrigação do canal radicular, esta pesquisa propõe-se analisar a real concentração do hipoclorito de sódio utilizado em procedimentos endodônticos, verificando as condições de armazenagem e embalagem da solução, nos quais podem reduzir seu teor de cloro ativo, e conseqüentemente seus efeitos esperados.

 

Material e Método

      Após aprovação do Comitê de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa da Universidade Cruzeiro do Sul, protocolado sob número 027/07, foram recolhidas 50 amostras da solução de hipoclorito de sódio em consultórios odontológicos escolhidos aleatoriamente em diversas regiões da cidade de São Paulo.

      Todos os profissionais cederam a amostra por livre e espontânea vontade, sendo preenchida uma ficha com todos os dados fornecidos pelo mesmo.

     O hipoclorito foi colocado em frasco de vidro âmbar (Figura 1), e acondicionado em caixa de isopor (Figura 2), para a realização da titulometria, a fim de mensurar o teor de cloro ativo das amostras recolhidas no prazo de 48 horas.

Figura 1 – Frascos de vidro âmbar

Figura 2 – Acondicionamento das amostras colhidas em caixa de isopor

     Com uma pipeta, cerca de 5,0g da amostra de hipoclorito de sódio era colocada em um balão volumétrico de 100ml, sendo pesada com auxílio de uma balança de precisão (Figura 3).

Figura 3 – Pesagem da amostra para análise

     O hipoclorito obtido na pesagem foi diluído em água destilada, obtida através de um destilador (Figura 4), até que a solução completasse os 100 ml do balão volumétrico sendo assim homogenizada a mistura através de agitação (Figura 5).

Figura 4 – Destilador de água

Figura 5 – Homogenização do hipoclorito de sódio com água destilada

     

Então, foram adicionados 10ml da solução de hipoclorito de sódio diluído contido no balão volumétrico a um erlenmeyer contendo 30ml de Iodeto de Potássio 10% (Figura 6).

Figura 6 – Diluição de iodeto de potássio 10% com hipoclorito de sódio diluído

     Em seguida, foram adicionados 30ml de Ácido Acético concentrado ao erlenmeyer (Figuras 7 e 8)

Figura 7 – Ácido acético

Figura 8 – Adição do ácido acético à solução diluída

     Com o gotejamento do Tiossulfato de Sódio 0,1N sobre a solução teve início o processo de titulação (Figura 9), no qual era observada alteração de cor da solução. (Figura 10).

Figura 9 – Gotejamento de Tiossulfato de Sódio 0,1N

Figura 10 – Mudança de cor causada pelo processo de titulação

     Assim que a solução tornou-se amarela clara, cinco gotas de amido 0,5% foram adicionadas e o processo de gotejamento do Tiossulfato de Sódio 0,1N, sendo descontinuado apenas no momento em que a solução tornava-se incolor (Figura 11).

Figura 11 – Coloração incolor resultante da titulometria

     O volume de Tiossulfato de Sódio 0,1N utilizado até que a solução tenha se tornado incolor, em conjunto ao valor de sua normalidade real e à massa obtida como resultado da pesagem de cerca de 5,0g das amostras de hipoclorito de sódio para um balão volumétrico de 100ml foram os valores utilizados no cálculo do teor de cloro ativo das amostras:

Teor de cloro = Vg x Nre x 3,722 x 100

M am    10

      Em que:

  • Vg = Volume gasto (em ml) de Tiossulfato de Sódio 0,1N;
  • Nre = Normalidade real do Tiossulfato de Sódio 0,1N;
  • M am = Massa da amostra em g.

 

      Todos os dados obtidos foram anotados em uma tabela para se analisar a distribuição das amostras em relação à concentração informada pelo profissional.

     Através do teor de cloro ativo encontrado foi calculada em porcentagem a perda de concentração em cada amostra, e assim os dados foram submetidos à análise estatística.

 

4. Resultados

      Diante das 50 amostras obtidas, 76% foram cedidas como sendo Líquido de Dakin, enquanto 8% eram Solução de Milton, 12% eram Soda Clorada e 4% afirmavam realizar sua própria mistura (Tabela 1).

Tabela 1 – Distribuição do tipo de hipoclorito de sódio colhido

Líquido de Dakin

Solução de Milton

Soda Clorada

Mistura Própria

Q

D

Q

D

Q

D

Q

D

38

76

4

8

6

12

2

4

Q=Quantidade; D=Distribuição Porcentual

      Apenas 8% das amostras estabelecia embalagem em frasco âmbar, e 90% eram acondicionadas em frasco de plástico opaco, outros 2% era mantido em frasco plástico transparente (Tabela 2).

Tabela 2 – Distribuição Percentual da embalagem encontrada

 

Vidro

Plástico

Âmbar

0

8

Opaco

0

90

Transparente

0

2

 

      Em relação ao armazenamento, 84% eram guardadas no balcão, 4% mantidas em geladeira, e 12% mantidos sobre o balcão (Tabela 3).

Tabela 3 - Distribuição Percentual do local de armazenagem separadas por grupos e em geral

 

Líquido de Dakin

Solução de Milton

Soda Clorada

Mistura Própria

Geral

Armário

86,8

75

83,3

50

84

Geladeira

2,7

25

0

0

4

Balcão

10,5

0

16,7

50

12

      No grupo do Líquido de Dakin obteve-se uma grande variação de perda de cloro ativo entre as amostras, encontando-se a maior perda com 0,04%, onde a média de cloro ativo foi de 0,22%.

      O grupo da Solução de Milton e da Soda Clorada se manteve mais estável, onde as menores concentrações foram 0,66% e 2,0% respectivamente, com média de cloro ativo de 0,92% e 1,88%.

      Os dados da titulometria foram submetidos ao teste estatístico, para se estabelecer qual a maior variação de perda de cloro ativo entre os grupos.

      A quantidade de cloro ativo entre os grupos foi de 0,22% no grupo do líquido de Dakin, 0,92% na Solução de Milton e 1,88% na Soda Clorada, correspondendo respectivamente à 56%, 18% e 11% de perda de cloro ativo respectivamente (Tabela 4).

Tabela 4 – Média da Concentração e Perda de cloro ativo das amostras

Líquido de Dakin

Solução de Milton

Soda Clorada

C

P

C

P

C

P

0,22

56

0,92

18

1,88

11

C=Concentração média; Perda de Cloro Ativo

      Através do teste de Barttlett, a probabilidade de homogeinidade mostrou-se diferenças não significantes, concluindo que as variâncias testadas são homogêneas.

      O teste paramétrico com comparações múltiplas, mostrou haver diferença estatisticamente significante ao nível de 1% entre os grupos Líquido de Dakin e Solução de Milton, e diferença significante ao nível de 5% entre os grupos Líquido de Dakin e Soda Clorada. A comparação entre Solução de Milton e Soda Clorada não obteve diferença estatisticamente significante (Tabela 5).

Tabela 5 – Comparação estatística dos Grupos duas a duas

Grupos

Diferença significante

Dakin x Milton

1%

Dakin x Soda Clorada

5%

Milton x Soda Clorada

Não significante

Discussão

      É um fato conhecido que as soluções de hipoclorito de sódio sejam eficazes na contenção da atividade antimicrobiana18. Porém, suas diferentes concentrações apresentam instabilidade, principalmente quando a solução é armazenada em condições inadequadas8,9.

     Idealmente, o profissional deve utilizar soluções recém-preparadas. Caso isso seja inviável, a conservação da solução em geladeira retarda a perda do teor de cloro em comparação às soluções conservadas em temperatura ambiente9,11. Vale destacar que não apenas temperatura e armazenagem influenciam na perda do teor de cloro do hipoclorito de sódio, mas também o pH da solução é capaz de afetar sua estabilidade14. Além disso, o profissional deve ter em mente que o teor de cloro é mais rapidamente degradado quanto maior for a concentração inicial do hipoclorito de sódio7.

      Na dificuldade da obtenção da solução de hipoclorito de sódio é possível a utilização de água sanitária como solução irrigadora do canal1,5,15. No entanto, fatores como condutividade, pH e, principalmente, nível de concentração de cloro devem ser levados em consideração para diluir a água sanitária em consultório, a fim de que a solução seja adequada ao uso em procedimentos endodônticos5.

            As amostras colhidas tiveram seu pH medido para se verificar se havia alguma diferença, o qual se observou valores dentro do recomendado por Siqueira 14.

      Na presente pesquisa, observou-se que os Cirurgiões Dentistas desconheciam a real concentração de hipoclorito de sódio que utilizavam em seus consultórios, visto que o método da titulometria das amostras analisadas comprovou que o teor de cloro das soluções era menor do que a concentração relatada pelos profissionais, o que poderia ser explicado devido todas as armazenagens serem em armários. Soluções de hipoclorito de sódio, mesmo quando armazenadas em temperatura ambiente durante um certo tempo, apresentam perda do teor de cloro ativo9, pois qualquer tipo de aquecimento das soluções de hipoclorito de sódio representam a aceleração do processo de perda de seu teor de cloro, principalmente quando o profissional trabalha com concentrações mais elevadas7.

      Em uma das amostras obtidas dentre os consultórios visitados, o profissional afirmou utilizar soda clorada em seus procedimentos endodônticos, o que poderia ser viável1,5,15. Porém, o armazenamento deste hipoclorito de sódio era feito em garrafa plástica transparente de refrigerante colocada embaixo da pia, o que naturalmente poderia ser um fator na perda do teor de cloro da solução, uma vez que a passagem de luz pode acelerar a liberação de do mesmo. Enfatiza-se também que tal produto havia sido adquirido em vendedores de rua de porta em porta, no qual o próprio aquecimento diário gerado pelo sol durante a venda do produto ocasionaria no aumento da instabilidade.

      Alguns profissionais se recusaram a fornecer as amostras solicitadas. No entanto, a análise das 50 amostras fornecidas demonstrou que a maioria destas apresentavam um teor de cloro menor do que constava no rótulo, onde a perda foi diferente conforme a concentração inicial das soluções. Houve diferença estatística comparando-se as soluções de hipoclorito de sódio a 0,5% com as soluções a 1% e de 2% a 2,5%, e, comparando-se apenas as soluções a 1% e de 2% a 2,5%, não houve diferença estatisticamente significante, o que mostra que as soluções de Líquido de Dakin foram mais instáveis, fato que poderia ser explicado pelo pH que não foi medido.

      Desta maneira, mais estudos deverão ser realizados para verificar o motivo pelo qual houve maior instabilidade das amostras rotuladas de Líquido de Dakin.

Conclusões

      Diante do presente estudo é lícito concluir que:

- A grande maioria de hipoclorito de sódio utilizado é o Líquido de Dakin, que, no entanto foi o que apresentou maior variação de perda de cloro ativo;

- O armazenamento mais encontrado é acondicionamento em frascos de plástico opaco e guardados em armário;

- A solução de Milton e a Soda Clorada apresentaram-se mais estáveis;

- A maioria dos profissionais não utilizam a real concentração que acreditam utilizar.

 

Referências

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* INFORMAÇÕES:

Título: Análise da real concentração de cloro ativo em soluções de hipoclorito de sódio"
Natureza:
Trabalho de Conclusão de Curso de Odontologia
Autor
: Maria do Carmo Paiva Gomes
Orientador
a: Profa. Dra. Maria Leticia Borges Britto
Co-orientador: Cleber K. Nabeshima
Instituição :
Universidade Cruzeiro do Sul

Ano: 2007

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