ARSENAL ENDODÔNTICO - OBTURAÇÃO

11. Obturação 

11.1. Placa de vidro polida/ despolida

A placa de vidro é utilizada para a espatulação de materiais em geral, podendo ser encontrada na versão polida, despolida e dupla face, onde um lado é polido e o outro despolido. A versão polida é a mais utilizada tanto para cimentos convencionais como para os endodônticos. Todavia, alguns cimentos, como o N-Rickert, precisam ser manipulados na porção despolida, isto porque este cimento possui em sua formulação alguns componentes como a colofônia, que pela sua tendência a aglutinação necessita de maior atrito para sua mistura e homogeneização na hora da espatulação.


11.2. Cimento

Os cimentos obturadores são, associados aos cones de guta–percha, os materiais mais utilizados para a obturação do conduto radicular. Eles auxiliam os cones no preenchimento das propriedades ideais dos materiais obturadores sendo os agentes responsáveis pelo escoamento e pela adesividade, podendo possuir, em alguns casos, propriedades bactericidas ou bacteriostáticas.

Ao mesmo tempo eles não devem interferir nas propriedades dos cones, em especial no que diz respeito à tolerância tecidual. O cimento deve, ainda, ser bem tolerado pelos tecidos apicais, isso sem falar que deve promover uma certa estimulação da reparação apical.

Ainda, o cimento, em associação com os cones, devem promover um excelente vedamento apical, desde que com um mínimo de 4mm de comprimento.Um outro fator a ser considerado na seleção do cimento obturador é o seu comportamento frente aos tecidos vivos, haja vista que, ao mesmo tempo em que é esperada sua reabsorção quando extravasado para a região periapical, desejamos que, no interior do conduto, ele permaneça intacto impedindo a formação de espaços vazios.

Os cimentos por nós utilizados são à base de óxido de zinco. Esta formulação básica deve ser associada a outros materiais para que se possa obter as propriedades físico–químicas e biológicas adequadas. Ainda, outras substâncias têm sido acrescentadas a ele para atenuar as propriedades indesejáveis. As resinas hidrogenadas ou a colofônia, por exemplo, são utilizadas para o aceleramento do tempo de presa. Para atenuar sua agressividade são  adicionados anti–inflamatórios. Para melhorar a ação contra bactérias residuais são acrescentadas drogas antibióticas ou anti–sépticas.

Estes cimentos são tidos como os possuidores da melhor estabilidade dimensional e a melhor tolerância tecidual. Eles são lentamente reabsorvidos quando extravasados, sendo, contudo, irritantes aos tecidos periapicais ainda mais quando manipulados de maneira incorreta e empregados na forma muito fluida - que significa a presença de muito eugenol livre.

As três marcas de cimentos obturadores recomendadas são o Endo-Fill®, o Intra-Fill® e o Cimento de Grossmann®, além do N-Rickert®. Todos a base de óxido de zinco e eugenol. Para sua espatulação, é necessária a utilização de uma placa de vidro que pode ou não ser despolida (a não ser no caso do N-Rickert que necesita placa despolida) e de uma espátula preferencialmente flexível que torne possível a compressão dos grãos de resina que estes cimentos possuem e que tendem a aglutinar impossibilitando o adequado escoamento.

 

Endo-Fill

peróxido de zinco p.a                       40,5g

resina hidrogenada               28g

subcarbonato de bismuto   16g

sulfato de bário                     15g

borato de sódio anidro         0,5g

Líquido

Eugenol                                  5ml

 

N-Rickert

óxido de zinco p.a                 41,2g

prata precipitada                   30,0g

colofônia                                            16,0g

di-iodo-timol(aristol)            2,8g

delta-hidrocortisona             2,0g

Líquido

óleo de cravo             78,0ml

bálsamo do Canadá              22,0ml

 

Sealer 26

hidróxido de cálcio

óxido de bismuto

óxido de titânio

hexametilenotetramina

aglutinados por

resina epoxi bisfenol

 

 

AH-Plus

óxido de bismuto                  60%

pó de prata                 10%

óxido de titânio                     5%

hexametilenotetramina        25%

Resina

Eter de bisfenol A diglicidil

 

11.3. Cones de guta-percha 

A guta-percha é um material proveniente do coágulo do látex de uma árvore da família das Sapotáceas. A este produto básico é adicionada uma série de materiais, em diferentes quantidades, conforme o fabricante, a saber: óxido de zinco e resinas vegetais que visa melhorar as propriedades de dureza e compressibilidade do material; sulfato de bário para dar a radiopacidade e outras resinas que podem alterar as propriedades mecânicas do mesmo, bem como dar coloração.

11.3.a. Cones principais de guta-percha

São dois os cones de guta-percha normalmente utilizados, os principais e os acessórios. Seu momento e indicação de uso serão posteriormente discutidos, por hora basta saber que os principais têm a sua ponta calibrada de acordo com a série ISO de instrumentos, já os secundários possuem calibres variáveis e são mais rígidos (maior quantidade de oxido de zinco).

 
Cones principais de gutapercha e de papel da Endopoints, no dispositivo organizador

 

11.3.b. Cones secundários de Guta-Percha

 

A guta-percha possui excelentes propriedades para a obturação dos canais radiculares. Ela apresenta, por exemplo, uma excelente biocompatibildiade, sendo bastante inerte aos tecidos periapicais, ainda, ela não é suscetível ao crescimento e a proliferação  bacteriana, sendo de simples descontaminação.

Os cones confeccionados com esse material preenchem praticamente todos os requisitos biológicos, não preenchendo porém alguns físico–químicos tais como a adesividade, escoamento, viscosidade e consequantemente não atingindo o selamento adequado. Desta forma são utilizados em associação com o cimento obturador para que essas propriedades possam ser complementadas.

  

11.3.c. Cones Principais de diferente índice de conicidade

Atualmente estão no mercado cones com diferentes índices de conicidade, bem como cones calibrados na odontometria e ainda cones em que aditivos são incorporados aos mesmos. Estes acompanham os instrumentos rotatórios, assim, além de seguir a série ISO (15 a 40 e 45 a 80) na sua ponta, eles também possuem a conicidade 0,04 e 0,06, o que facilita a obturação demandando uma menor quantidade ou até mesmo nenhum cone secundário.

Para a série de instrumentos ProTaper®, há cones de guta-percha com diâmetro correspondente aos instrumentos F1, F2 e F3 e que também podem ser utilizados segundo  técnica acima proposta.

11.4. Cones de papel absorvente 

Segue o padrão dos cones de guta-percha principais. Assim, apresentam-se como cones de calibres ISO e conicidade variável de acordo com a técnica empregada para seu uso. Os cones de papel são utilizados para a secagem final dos canais antes da obturação dos mesmos.

 

11.5. Calcadores Tipo Paiva

 

Os calcadores tipo Paiva, são instrumentos que possuem na extremidade uma ponta romba que serve para realizar a condensação vertical durante a obturação do sistema de canais radiculares. Ele apresenta diversos diâmetros que devem se tornar compatíveis com o tamanho dos canais a terem sua obturação condensada. Ele também pode ser utilizado aquecido ao rubro de modo a realizar o corte dos cones de guta percha durante a fase de obturação dos canal radicular no limite proposto podendo, nesta função, ser utilizado para o preparo .dos condutos para receber um retentor intra-radicular.


11.6. Espaçadores Digitais

Os espaçadores apresentam forma cônica, semelhante à lima, possuindo diferentes diâmetros. Servem para realizar a condensação horizontal (ou lateral) durante a obturação do sistema de canais radiculares. Quando ele é inserido, pode abrir espaço para a colocação de cones secundários no interior do canal radicular. Alguns fabricantes possuem espaçadores digitais do mesmo tamanho dos cones secundários para facilitar a inserção dos mesmos.

 

 11.7. Condensadores Digitais

 

Com a mesma finalidade dos calcadores tipo Paiva, os condensadores digitais são utilizados para a condensação vertical durante o processo de obturação do canal radicular. Podem ser ainda de grande ajuda na inserção de medicação para o tratamento de lesões periapicais com Iodofórmio em que buscamos não somente uma medicação intracanal, mas também extracanal,.


11.8. Tesoura para corte de cones

A tesoura para cones possui uma porção serrilhada na sua parte ativa, para que se possa evitar que os cones escorreguem na hora do corte. Este corte é muito útil para a visualização e acesso da região de acesso ao canal, quando a mesma está impedida devido a grande quantidade de cones já colocada.


11.9. Condensador de Gutapercha 

            Permite a plastificação da guta percha no interior do canal radicular, garantindo um obturação mais rápida e homogênea. Seu desenho é semelhante a uma lima tipo Hedstroen invertida e seu ângulo de corte acentuado propicia, através do movimento de rotação, o atrito e conseqüente calor que assim derrete a guta percha e, pelo desenho do compactador, deve permitir o escoamento por todo o espaço do canal preparado.

11.10. Sistema Thermafil® 

            Sistema exclusivo de obturação Maillefer®. Preenche o canal de forma tridimensional com maior rapidez. É composto pelo exclusivo forno Thermaprep® que aquece a gutapercha na medida certa para ser inserida no canal e pelo Verifier®, que permite a verificação do comprimento de trabalho.

Ele é semelhante a uma lima com a sua parte ativa envolta por guta percha e, quando na temperatura certa deve ser levado ao interior do canal, sendo o suficiente para obturar o canal.

12. Selador Marginal

O MTA, Agregado Mineral Trióxido foi descrito pela primeira vez por Lee et al., em 1993 e tem demonstrado excelentes propriedades no que se refere  qualidade de vedamento e resistência, sendo indicado para o tratamento de perfurações , apicificação, cirurgia para-endodôntica, na retro-bturação e obturação retrógrada, capeamento pulpar direto, pulpotomia, reparo de reabsorções internas e externas e até  mesmo como material obturador.

Sua composição química foi estudada através de um espectofotômetro de raio-X e microscopia eletrônica. Trata-se de um pó constituído de óxido de cálcio (65%), dióxido de silício(21%), óxido férrico (5%), óxido de alumínio(4%), sulfato de cálcio (2,5%), óxido de magnésio (2%) e outros óxidos minerais que modificam suas propriedades físicas e químicas. A hidratação do pó resulta em um gel colóide que se solidifica em aproximadamente três horas. A fim de aumentar a radiopacidade do agregado, foi incorporado óxido de bismuto ao pó.

Observou–se que a maioria das moléculas presentes no MTA são íons cálcio e fosfato, o pH inicial é 10,2 subindo para 12,5 três horas após a manipulação. Ele apresenta ainda um tempo de presa longo de 2h45min e após 24 horas apresenta resistência a compressão de 40 MPa, valor que, após 21 dias, sobe para 67 Mpa. No que se tange a solubilidade, o mesmo apresenta resultados satisfatórios.

Ainda no que se refere às suas propriedades físicas, Koh et al.(1997) descreveram o MTA como um material que apresenta duas fases especificas na sua composição, parecendo ser dividido em cálcio e fosfato de cálcio. Ele deve ser mantido longe da umidade antes de seu uso e para manipulá–lo, deve–se misturar o pó com água estéril na proporção 3:1 (Torabinejad et al., 1995).

A adaptação marginal, quando ele é utilizado como material retro–obturador, demonstrou ser melhor que a do amálgama (Torabinejad et al.,1995). Sua citotoxicidade é pequena, sendo menor que a do Super–EBA e do IRM. No entanto, foram encontrados resultados conflitantes no que se refere a sua comparação com o amalgama (Torabinejad et al., 1995; Osório et al., 1988). Aparentemente este material não apresenta potencial mutagênico (Kettering et al., 1995).

Como material retro–obturador, o agregado possui uma maior capacidade seladora em relação ao Super–EBA (Torabinejad et al.,1993), tanto na ausência, mas principalmente na presença de sangue, onde sua ação é mais significativa (Torabinejad et al., 1994).

Isso parece importante pois sabemos que uma das maiores dificuldades em se obter adequada adaptação dos materiais a serem utilizados nas obturações retrógradas é o fato de se trabalhar em ambientes úmidos, o que definitivamente interfere com a cura do material, o que não acontece com MTA.

A fim de reproduzir estes cuidados na clínica diária, é fundamental que se respeitem alguns princípios, dentre eles a realização de uma efetiva limpeza da área afetada. A posição espacial do MTA necessita sempre ser confirmada com a utilização de radiografias, devendo este material ser protegido do condicionamento acido.

 

  

 

 


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